Durante minha vida, aquela seria a primeira das muitas privações que teria da nossa tão querida e amada liberdade. A primeira experiência de exclusão social e parcial privação de sentidos. Este tipo de experiência nos impacta de forma tão intensa que nossa vida pode ser marcada com um antes e depois delas. Comigo, não foi diferente.
Estava deitado. A lembrança mais forte puxada pela memória abalada é que eu estava deitado.Uma escuridão total pairava sobre mim. Notei a força da ausência da luz porque, quando forcei um pouco os olhos afim de abri-los , a sensação era a mesma que se tinha ao mantê-los fechados.
Não me lembro de como fui parar naquela estranha cela. Minha mente fraquejava ao tentar resgatar um resquício que fosse, um fragmento qualquer do momento anterior ao cárcere. Instantes a mais de esforço revelaram alguns lances de imagens sem nenhuma ligação entre si: Primeiro, um milhão de vozes pareciam estarem presas no mesmo lugar, depois, as vozes foram diminuindo. Surgiu, neste ponto, a imagem em esboço de apenas duas pessoas. Um homem e uma mulher seguida de uma agitação alucinante que não distingui com perfeição.