quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Invasões Inomináveis.



Era seis horas da tarde...

O clima típico de verão já havia descortinado pelas ruas: Sol escaldante e tempestades repentinas. Ela me ligou, uma hora atrás, dizendo que estaria aqui em 30 minutos. Como era de se esperar, já se passou cerca de uma hora e nem sinto seu perfume primaveril: sempre se atrasa.


Minha maior preocupação vinha do fato da precisão certeira da previsão do tempo para o fim de tarde. Essa mesma previsão que sempre falhou quando me baseio em seus cálculos para partir supostamente em segurança para uma viagem. A garota do tempo disse que , no fim da noite, haveria uma pequena queda na temperatura. “ Pequena”, enfatizou ela.

Lancei meu olhar além de minhas janelas cobertas por uma fina persiana. Não acreditei na garoa finíssima que caía lá fora com muita intensidade. Meus olhos percorriam a sala. A cada minuto um novo objeto era alvo de minha inquietude acompanhado dos milhares de porquês por conta do seu atraso.


 Ato comum nessas horas em que a ansiedade toma-nos conta, o relógio tornou-se meu maior inimigo. O tique-taque mecânico e repetitivo era ensurdecedor. Um novo avanço do contador de segundos resultava em um aumento considerável da minha angústia, que, aliás, nunca obtive controle algum.

A dúvida oscilava de momento em momento. Comecei a olhar fixamente para a clara persiana que recobria a janela procurando me acalmar um pouco.

Passado alguns minutos, a garoa finíssima havia se transformado em uma torrente que me preocupava consideravelmente. Eu só conseguia enxergar nela a culpa do atraso de minha menina. Minha!? Estranho esse sentimento de posse de alguém que proclama ser “cidadão do mundo”. Besteira pensar nisso...

Peguei um livro na estante e pus-me a folheá-lo na espera que as horas se despetalassem mais rapidamente. O livro chegou ao fim e minha casa ainda não tinha vestígio de sua presença.Encasquetei que a persiana estava obstruindo minha visão geral da rua.  O que não era totalmente verdade. No fundo, era só um pretexto para descarregar minha raiva. Ao retirá-la, para minha surpresa, pude perceber seu escultural corpo moreno, sutilmente recoberto pela chuva, transformando-se em um esboço de uma figura perfeita. Entrei em estado de frenesi. Sua calça jeans completamente molhada. Seu tênis All Star, vermelho claro devido ao tempo de uso, estava como novo. Fiquei observando-a por ali mesmo, enquanto ela corria na direção de minha casa.
Era dez e meia da noite...

Seus pés pequeninos tocaram o carpete da entrada. Ocorreu-me, espontaneamente, que seu atraso deveu-se mais ao trabalho do que a chuva (estava trabalhando em um longa-metragem de nome “Pelos Pátios Partidos em Festa”, em homenagem a uma banda da qual me escapa o nome).

Abri a porta pensando que seria contemplado de imediato pelo seu abraço.Com os olhos, percorri todo seu corpo para adicionar mais outra constatação: “Ela é linda”, pensei. Entrou em minha casa sem olhar diretamente para mim. Ofereci uma toalha. Ela negou prontamente balbuciando qualquer coisa incompreensível. Em seguida, atirou seu corpo tropical, perfeito no mais íntimo detalhe no meu sofá. Sentei a sua frente, encarando-a.

Fitei-a por completo. Da ponta dos pés ao seu cabelo de cor sempre mutável. Seus lábios carnudos, sexys,provocantes. O pescoço longo, totalmente descoberto. Os seios,ah, aqueles seios fartos combinavam harmoniosamente com seu quadril angariador de olhadas cheias de maldade e desejo, sem nenhum pudor...

Lançou-me um sorriso com uma intensidade indiscutível. Sorri, comovido.
Qualquer um que a olhasse naquele instante seria acometido de um sentimento visceral, uma sensação inominável. Tenho certeza disto.

Suas pálpebras foram fechando lentamente, ficando entreabertas não mais que cinco segundos. Fecharam-se por completo após de um breve momento de resistência. Mesmo dormindo, seu sorriso ainda estava ali. Como se fosse uma obra de arte eternizada pelo mais talentoso artista. Perfeito, como tudo que provém dela.

Fiquei admirando-a até minha completa exaustão. Acordei somente pela manhã e a única prova de que ela realmente esteve ali foi a marca de suas curvas molhadas deixada no sofá.

Partiu sem dizer uma palavra. Com um silêncio maior do que aquele que a acompanhava assim que chegou. Deixou cicatrizado em meu coração um “algo” mais forte que o abraço que não recebi.
Nenhuma poesia pode superar, ou se quer retratar a pureza dessa emoção.

 Talvez aquela rápida visita fosse uma metáfora dos nossos repentinos e intensos encontros: os momentos que mais saboreei na vida, foram estas memórias abarrotadas de cheiros e sensações.

Ela saiu da minha vida tão rapidamente quanto de minha casa.

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